quarta-feira, setembro 22, 2004

GLOBALIZAR A COERÊNCIA

Quando um dos ministros pretende diferenciar taxas e outro deseja acabar com as diferenciações, das três uma: ou o Senhor Primeiro Ministro está ausente, ou distraído ou de facto não tem uma visão estratégica coerente para o seu Governo.

DIFERENCIAÇÃO NEGATIVA

No meu último texto critiquei a intenção do Governo de estabelecer taxas diferenciadas para a utilização dos serviços públicos, com base nas declarações do IRS. Isto é, quanto mais IRS, mais taxas....
Hoje congratulo-me com a intenção do Ministro das Finanças de acabar com alguns benefícios fiscais, tais como os que incidem sobre os PPR e os PPA.
Neste caso as diferenciações existem e são injustas.
Foram criadas ao longo dos tempos, ao sabor dos lobbies, sob pretextos vários (estimular a poupança... incentivar o mercado de capitais, etc.).
A injustiça consiste no facto de que aqueles que não têm recursos suficientes para fazerem poupanças (ou que por razões de idade não satisfazem os requisitos para o efeito) pagam mais impostos.
Isto é: ser pobre ou ser velho é motivo de tributação...

Acresce que o Ministro (que eu, como pagador de impostos, aplaudo) tem a intenção de redistribuir esses benefícios por todos os contribuintes através da subida dos escalões.
O que é mais do que justo.
Muito bem, Senhor Ministro.

DIFERENCIAÇÃO POSITIVA

O actual Governo parece possuído pela fúria de implementar o princípio de cobrar pela utilização dos serviços públicos valores em função das declarações de IRS dos utentes.
Para já, nos hospitais e nos transportes públicos...
Outras se seguirão....
Chamam-lhe a diferenciação positiva.
As classes de maiores rendimentos, designadamente as das profissões liberais que são conhecidas por pagarem quase nada de impostos, e a dos pequenos empresários, que declaram sempre prejuízos, devem estar deliciadas com a ideia. Já não falo nos grandes capitalistas e empresários que fazem passar a maioria dos seus rendimentos pelos off-shores criados para o efeito, porque esses não recorrem certamente a serviços públicos.
Aqueles que, como eu, pertencem à legião de escravos que, por trabalharem por conta de outrém, não podem escapar à fúria do fisco, vêem a determinação governamental com extrema preocupação.

Em meu entender, a verdadeira justiça seria a de se cobrarem pelos serviços públicos o seu custo real (baseado num padrão aceitável de produtividade) e de se praticar o apoio aos mais carenciados através de um subsídio que lhes permitisse não ficarem abaixo do nível pobreza.
Assim, teriamos a certeza de que estariamos, com os nossos impostos, a ajudar os mais pobres.

segunda-feira, setembro 06, 2004

O USO DA LÍNGUA

No "posted" do seu blogue A BANHADA DO PROFESSOR MARCELO, refere o meu Amigo um episódio que o seu professor de português, Pires de Lima , contou numa das suas aulas, a proposto do uso do calão.
Ao le-lo, lembrei-me dum outro episódio a que assisti numa viagem de comboio.
A determinada altura, no meio dum vozerio que veio alterar o sossego dos passageiros, entrou, de tropel, na carruagem em que eu seguia, um grupo de vendedeiras de peixe, carregadas com os aprestos da sua profissão.
Os poucos lugares vagos foram rápida e pressurosamente ocupados pelas mais diligentes recém-chegadas
Ficou uma de pé.
Mulher encorpada, embaraçada com a canastra do peixe e outros pertences, encostou-se, como pôde, à parede para se aguentar melhor na incómoda posição.
Depois de alguns momentos em que, com o olhar percorreu toda a carruagem na esperança duma solução, desabafou numa voz possante e visivelmente agastada: "Então não há nenhum caralho de nenhum home que se levante pra uma senhora se sentar ?"
Obviamente, depois daquela carvalhada, ninguém se levantou para dar lugar à senhora.
(mensagem enviada pelo meu Amigo Carlos Soares Ferreira, que agradeço)

quinta-feira, agosto 05, 2004

FAHRENHEIT 9/11 (II)

No Diário de Notícias de hoje, na sua coluna habitual, Miguel Portas, do Bloco de Esquerda, comentando o filme Fahrenheit 9/11, reconhece que se trata de uma manipulação, mas considera-a válida por ser contra George Bush, “...o assassino de luvas brancas.”
Pelos vistos para ele os fins justificam os meios... desde que os fins sejam os seus....
Caso contrário, o método seria totalmente inaceitável e moralmente condenável.

terça-feira, agosto 03, 2004

AS APARÊNCIAS ILUDEM

Perante o dilema de confiar o Governo ao PSD, liderado pelo Dr. Santana Lopes, ou convocar eleições antecipadas, beneficiando o PS, o Senhor Presidente da República surpreendeu o País ao optar, depois de duas longas semanas de consultas, pela primeira hipótese.
A esquerda, vendo-se afastada do Poder que parecia ao seu alcance, levantou-se em peso, protestando de forma por vezes violenta, desde o Bloco de Esquerda, ao Partido Comunista e ao próprio Partido Socialista.
O Dr. Ferro Rodrigues demitiu-se como forma de protesto. A Drª. Ana Gomes viu nisso uma traição e o fim da democracia (a sua).
O PSD e o CDS aplaudiram com elegância e consideraram o Presidente uma pessoa inteligente e esclarecida.
A Maioria parlamentar de tão contente que ficou nem sequer procurou descortinar os fundamentos da decisão.
Curiosamente os rivais do Dr. Ferro Rodrigues foram muito discretos nas manifestações....
Analisando mais atentamente e sem paixão vemos que:
a) o Dr. Jorge Sampaio, que criticava de forma velada a política de contenção orçamental, exigiu que a mesma fosse mantida;
b) o PS que tinha uma liderança sem futuro viu-se livre dela de um dia para o outro e ganhou ano e meio para se reorganizar, com um líder mais carismático;
o PSD vai ter de carregar a cruz dos sacrifícios durante esse ano e meio, sob a vigilância atenta do Presidente.
Admitindo-se que em eleições imediatas o PS não ganharia com maioria absoluta e iria sofrer o desgaste duma governação sem dinheiro para distribuir, tudo leva a crer que o Sr. Dr. Jorge Sampaio não se esqueceu das suas opções políticas e definiu uma estratégia de conquista do Poder a um prazo um pouco mais longo (ano e meio), mas mais segura e de efeitos mais duradouros.
As aparências iludem...

FAHRENHEIT 9/11

Todos nós temos qualidades e defeitos. Quando se pretende dizer mal de alguém, referem-se apenas os seus defeitos, ignorando as qualidades. Faz-se o inverso quando se deseja enaltecer a pessoa.
Isto é, manipula-se a verdade da forma mais conveniente.
E a verdade sai falseada.
Lembrei-me desta técnica simples de manipulação com que nos confrontamos diariamente na convivência com outras pessoas, quando assisti ontem ao filme Fahrenheit 9/11, de Michael Moore.
O que incomoda é que o autor, no desejo de prejudicar gravemente a imagem do Presidente Americano, George Bush, nem sequer evitou a divulgação de imagens extremamente chocantes da guerra do Iraque, que a própria televisão americana não publicou, por respeito para com os espectadores e especialmente os familiares das vítimas.
O filme é manifestamente desonesto e mal intencionado.
Trata-se de chicana política.
De tal forma que nem os próprios democratas, incluindo o candidato John Kerry, se querem ver associados a ele.