Numa viagem que fiz ao Rio de Janeiro há alguns anos atrás, fui ao Canecão assistir a um espectáculo de Caetano Veloso, que estava anunciado para as 21 horas. As 21 e 15 nada tinha acontecido, excepto que as pessoas continuavam a entrar. Meia hora depois o público começou a dar sinais de impaciência. Passados 45 minutos havia assobios e uma pateada ensurdecedora. Pouco depois o artista entrou no palco e começou a cantar. Fez-se silêncio e os aplausos foram intermináveis.
Dias depois, entrei num outro teatro onde Jô Soares dava o seu "one man show".
Ao observar os vários cartazes existentes no hall, pude ler num deles comentários da imprensa que enalteciam todo o espectáculo, desde a qualidade da montagem aos dotes excepcionais do grande artista que é, como todos sabemos, o GORDO.
E a terminar dizia que Jô Soares era não só o maior artista vivo do Brasil, como o único que começava o seu espectáculo a horas.
Amante como sou da pontualidade, foi com entusiasmo que comprei os bilhetes de ingresso.
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O espectáculo começou com meia hora de atraso.
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Com estes antecedentes fiquei admirado quando tive conhecimento de que o actor brasileiro António Fagundes, interpretando uma peça de teatro em Portugal, anunciou previamente que as portas de entrada na sala seriam fechadas, impreterivelmente, à hora do início do espectáculo.
E fiquei espantado quando soube que cumpriu a regra logo no dia da estreia, deixando surpreendidos e indignados umas dezenas de portugueses.
O meu espanto e admiração tem a ver com o caracter do artista.
António Fagundes vem de um País que não usa relógio e sabe muito bem que para os portugueses chegar tarde é uma questão de estatuto.
Quando lhe perguntaram se pretendia castigar os retardatários, respondeu simplesmente que queria fazer respeitar os espectadores pontuais e os artistas.
Aplaudo de pé António Fagundes.
Além de grande artista é também um homem educado e corajoso.
Não vai endireitar o Mundo, mas passa a ser, para mim, uma referência a ter em conta.
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