O Banco Nacional Ultramarino organizou em Moçambique a maior reserva de vida selvagem que porventura existiu em África na década de setenta. A Safrique, como foi designada, reuniu uma meia dúzia de coutadas, numa área de dimensão superior à de Portugal, para explorar o turismo cinegético, baseado num abate controlado de animais e no safari fotográfico. Reunia aquele espaço uma impressionante fauna selvagem, rica em espécies e em quantidade de animais. Desde os felinos aos pequenos primatas e às aves raras, de tudo existia naquelas centenas de quilómetros quadrados de florestas, planícies e rios, com uma extensa praia de areia muito branca e mar azul, ao longo da costa. Nunca, em lugar algum, penso que possa ter existido algo tão magnífico e tão grandioso. Era a natureza no seu esplendor.
Em todas as coutadas da Safrique existiam acampamentos, feitos de madeira e colmo, constituindo pequenos aldeamentos, na aparência semelhantes às aldeias indígenas, mas dotados de todos os requisitos de qualquer hotel de cinco estrelas.
O custo dos safaris só era acessível a pessoas muito ricas, idas principalmente dos Estados Unidos e da Europa. Por ali passaram grandes empresários, políticos de renome, estrelas de cinema e outros que puderam pagar o privilégio de apreciar algumas maravilhas da natureza.
Lembro-me de um palanque construído no cimo de algumas árvores junto a uma pequena lagoa, onde no início ou no fim do dia as pessoas se juntavam em profundo silêncio para ver ou fotografar os animais que pela fresca ali iam beber. Qualquer animal selvagem é de uma beleza única e incomparável. O leão, com a sua enorme juba, a cor da sua pele e o porte sobranceiro é uma obra extraordinária da natureza. Mas o mesmo se pode dizer do leopardo, da girafa, das zebras com as sua magníficas listagens, e tantas outras espécies, algumas infelizmente em vias de extinção. Mas a impressão que causam é maior quando são observados no seu habitat natural, onde se acrescenta a beleza do cenário, também único.
O pessoal que trabalhava nos acampamentos incluía, obviamente, caçadores-guias profissionais, que organizavam as deslocações diárias e asseguravam uma escolha criteriosa dos animais a abater, quando era caso disso, com preferência pelos machos mais velhos e com absoluta exclusão de fêmeas ou crias. Eram responsáveis também pela segurança dos turistas e pelo bom sucesso da caçada. No fim do dia, no acampamento, perto de uma enorme fogueira que afastava o cacimbo e os mosquitos, participavam com os seus clientes na euforia do momento, em que se lembravam os aspectos mais significativos da jornada, acompanhando a conversa com champanhe, wiskie ou vinho das melhores marcas e, para quem apreciava, de um bom charuto. Normalmente os caçadores-guias eram pessoas muito interessantes, pela experiência das suas vidas e pelo refinamento resultante do convívio com as personalidades que acompanhavam. Guardo, porém, uma recordação especial do velho Pierre, que ficou associada a uma tragédia de triste memória.
Uma família americana, constituída pelos pais e uma jovem de dezoito anos, esbelta, bonita e alegre, fizeram uma safári, que decorreu muito bem até ao fim, Na hora do regresso, a filha pediu para ficar mais uma semana. O seu prazer predilecto era o de se deslocar à praia, onde sózinha no imenso areal se despia e nua mergulhava nas ondas, apreciando a frescura das águas sob um o sol quente e brilhante. O velho Pierre, que podia ser seu pai (e talvez até avô), mantinha-se discretamente a alguma distância, procurando não interferir com a liberdade e o prazer que a jovem tirava daqueles momentos únicos, naquele espaço magnífico. Os pais criaram uma grande confiança no seu já amigo Pierre e resolveram aceder ao pedido da filha, que assim ficou, para morrer naquele paraíso, vítima de um fascinante mas perigoso animal selvagem, que cruzou o seu destino.
Um dia, um dos criados do acampamento anunciou que um leopardo fora ferido e fugira, não tendo ainda sido encontrado. Cabia ao Pierre ir procurá-lo e abatê-lo. Um animal selvagem ferido era um perigo para as populações e para os turistas. A jovem quis acompanhá-lo, ao que ele recusou. Mas ela não sabia aceitar recusas e tanto insistiu que acabou por convencer o velho caçador, que não resistiu aos encantos da jovem. Durante horas seguiram as pistas deixadas pelo leopardo e, pouco a pouco, aproximaram-se do local, na floresta, onde provavelmente se encontrava. O leopardo é um animal ágil, trepando às árvores como um gato e podendo esconder-se a coberto das folhas e dos galhos.
Não sei se alguém, alguma vez, chegou a saber exactamente o que se passou. Ao que parece o leopardo caiu de surpresa sobre a jovem. O velho Pierre, ao tentar desesperadamente abatê-lo, disparou, mas o tiro atingiu a jovem...
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