terça-feira, agosto 03, 2004

AS APARÊNCIAS ILUDEM

Perante o dilema de confiar o Governo ao PSD, liderado pelo Dr. Santana Lopes, ou convocar eleições antecipadas, beneficiando o PS, o Senhor Presidente da República surpreendeu o País ao optar, depois de duas longas semanas de consultas, pela primeira hipótese.
A esquerda, vendo-se afastada do Poder que parecia ao seu alcance, levantou-se em peso, protestando de forma por vezes violenta, desde o Bloco de Esquerda, ao Partido Comunista e ao próprio Partido Socialista.
O Dr. Ferro Rodrigues demitiu-se como forma de protesto. A Drª. Ana Gomes viu nisso uma traição e o fim da democracia (a sua).
O PSD e o CDS aplaudiram com elegância e consideraram o Presidente uma pessoa inteligente e esclarecida.
A Maioria parlamentar de tão contente que ficou nem sequer procurou descortinar os fundamentos da decisão.
Curiosamente os rivais do Dr. Ferro Rodrigues foram muito discretos nas manifestações....
Analisando mais atentamente e sem paixão vemos que:
a) o Dr. Jorge Sampaio, que criticava de forma velada a política de contenção orçamental, exigiu que a mesma fosse mantida;
b) o PS que tinha uma liderança sem futuro viu-se livre dela de um dia para o outro e ganhou ano e meio para se reorganizar, com um líder mais carismático;
o PSD vai ter de carregar a cruz dos sacrifícios durante esse ano e meio, sob a vigilância atenta do Presidente.
Admitindo-se que em eleições imediatas o PS não ganharia com maioria absoluta e iria sofrer o desgaste duma governação sem dinheiro para distribuir, tudo leva a crer que o Sr. Dr. Jorge Sampaio não se esqueceu das suas opções políticas e definiu uma estratégia de conquista do Poder a um prazo um pouco mais longo (ano e meio), mas mais segura e de efeitos mais duradouros.
As aparências iludem...

FAHRENHEIT 9/11

Todos nós temos qualidades e defeitos. Quando se pretende dizer mal de alguém, referem-se apenas os seus defeitos, ignorando as qualidades. Faz-se o inverso quando se deseja enaltecer a pessoa.
Isto é, manipula-se a verdade da forma mais conveniente.
E a verdade sai falseada.
Lembrei-me desta técnica simples de manipulação com que nos confrontamos diariamente na convivência com outras pessoas, quando assisti ontem ao filme Fahrenheit 9/11, de Michael Moore.
O que incomoda é que o autor, no desejo de prejudicar gravemente a imagem do Presidente Americano, George Bush, nem sequer evitou a divulgação de imagens extremamente chocantes da guerra do Iraque, que a própria televisão americana não publicou, por respeito para com os espectadores e especialmente os familiares das vítimas.
O filme é manifestamente desonesto e mal intencionado.
Trata-se de chicana política.
De tal forma que nem os próprios democratas, incluindo o candidato John Kerry, se querem ver associados a ele.

sexta-feira, julho 02, 2004

GALERIA DE NOTÁVEIS (a minha)

Desde que o direito de escolha existe, tenho votado PSD.
Sou admirador do Dr. Sá Carneiro, do Prof. Cavaco Silva e de algumas outras personalidades que se têm distinguido na vida pública nacional pela clareza dos seus ideais e princípios, pela honestidade e rigor dos seus comportamentos, e pela subordinação dos interesses pessoais ao interesse público.
Nos últimos dois anos acrescentei mais um nome à minha galeria de notáveis: o da Ministra das Finanças Drª. Manuela Ferreira Leite.
Não tenho com ela, nem com qualquer pessoa das suas relações, qualquer ligação, pelo que o meu sentimento é genuíno e autêntico.
Com o seu programa de equilíbrio das finanças públicas, sem o qual não é possível transformar e modernizar o País, a Drª. Manuela Ferreira Leite enfrentou, praticamente sozinha (e de uma forma completamente desinteressada), as consequências mais negativas que no imediato têm afectado os portugueses mais desprotegidos.
Com a força das suas convicções, enorme competência e grande coragem tem realizado um trabalho excepcional que as futuras gerações não deixarão de registar.
Competente, honesta, trabalhadora e dedicada exclusivamente à Causa Pública é como eu vejo esta Senhora notável.
Trata-se de um caso de excepção num País onde é fácil encontrar todo o tipo de corrupção (a todos os níveis), em que os políticos pensam em primeiro lugar nos seus interesses pessoais ou corporativos e em que o dinheiro dos contribuintes é esbanjado sem pudor nem receio.
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Compreendo o sentimento de hostilidade que grande parte da população lhe dedica, mas não compreendo a falta de solidariedade que os seus pares no PSD têm demonstrado, nem a aparente satisfação com que a vêem partir, sem uma palavra de agradecimento e de apreço.
Foi com tristeza e revolta que a vi ontem, na televisão, deixar a sede do PSD sozinha, cabisbaixa, acompanhada por dichotes de pessoas com microfones e câmaras de filmar.
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Considero também lamentável que a comunicação social tenha ignorado completamente a (implícita) homenagem que lhe está já a ser prestada pelas elites mais responsáveis deste País, a começar pelo Senhor Presidente da República, ao considerarem como fundamental a manutenção da política de rigor e de contenção orçamental pela qual se sacrificou e pela qual tem sido injustamente criticada.


quinta-feira, julho 01, 2004

CARTEIRA EM PERIGO

Ao trocar o cargo de 1º. Ministro de Portugal pelo de Presidente da Comissão Europeia, o Dr. Durão Barroso não enquadrou a sua decisão no campo dos princípios morais e éticos que parecia defender.
Abandonou um projecto de dimensão nacional com impacto no futuro do País.
Abandonou os seus ministros e colaboradores, a quem, ao que parece, não informou em devido tempo nem deu quaisquer explicações.
Abandonou aqueles que em si votaram e acreditaram.
Abandonou o Partido à sua sorte.
Tomou todos por parvos, limitando-se a afirmar que o País só terá a lucrar.
Felizmente, não chegou ao ponto de dizer que lhe devemos agradecer.
Como consequência imediata Portugal irá para eleições gerais, que o PS certamente ganhará, após o que fará aquilo de que tanto gosta: gastar o dinheiro dos contribuintes sem olhar para o fundo do saco.
A alternativa, pouco viável, será a de ser o PSD a indicar um leader que já é aclamado por muitos que também se preparam para o assalto ao orçamento.
Em ambos os casos vejo a minha carteira em perigo....

Penso que nunca, em tempo algum, alguém terá contribuído tanto para o desprestígio do PSD que vai certamente ser pulverizado nas urnas.


TRAIÇÃO

Há cerca de dois anos dei o meu voto ao PSD e ao Dr. Durão Barroso. Fi-lo com convicção e alguma alegria porque o Dr. Durão Barroso se propunha:

a) governar com rigor para corrigir o excessivo endividamento do País e dos portugueses, de forma a criar condições de desenvolvimento para o futuro;
b) realizar reformas estruturais para dar maior flexibilidade e polivalência à capacidade produtiva dos portugueses;

O Dr. Durão Barroso pediu sacrifícios e prometeu governar sem pensar nas próximas eleições, pois sentia a responsabilidade histórica de dar um contributo decisivo para a modernização de Portugal.

Dois anos depois, a meio do seu mandato, sem ter concluído o seu trabalho e encontrando-se o País numa encruzilhada crucial entre os sacrifícios já feitos e a não certeza dos seus resultados, o Dr. Durão Barroso vira a costas e emigra.

Por muito legítima que seja a sua opção, a verdade é que deixa o barco à deriva...

Seria impensável a qualquer general abandonar as suas tropas no meio da batalha e ficar indiferente à sorte da população.

Na ética castrense seria traição.





quarta-feira, junho 30, 2004

OLHAR O PASSADO

O tempo corre muito rapidamente e, de repente, estamos a olhar para o passado, que a memória nos permite reviver ....
Nem sempre avaliámos bem os nossos procedimentos (nem as opções feitas) e de alguns nos arrependemos mais tarde.
Fomos livres para escolher, mas não somos para nos libertarmos das consequências dos nossos actos.

quinta-feira, junho 17, 2004

A BANHADA DO PROFESSOR MARCELO

Quando, na década de 1950, frequentava o 1º. ciclo do liceu (actuais 5º e 6º ano) o meu professor de português, Dr. Pires de Lima, contou um pequeno episódio para exemplificar a sua preocupação pelo uso crescente de uma linguagem vulgar e imprópria, normalmente designada por calão. Segundo ele, seguia num carro eléctrico completamente cheio quando entraram duas “senhoras” que logo procuraram chamar a atenção dos passageiros sentados. E uma delas terá dito em voz bem alta: “Que chatice...não há lugares”. O professor que, apesar da idade, se preparava para oferecer o seu lugar, imediatamente desistiu. Para ele, a palavra “chatice” era imprópria de uma pessoa educada e causava-lhe calafrios.
Lembrei-me deste episódio depois de ouvir na televisão o Prof. Dr. Rebelo de Sousa referir a “banhada” que o Governo tinha apanhado nas eleições para o parlamento europeu.
Como comentador político, o Professor não pode esquecer a sua qualidade académica e o facto de que é um modelo para muitos jovens. Deve ter a preocupação de usar uma linguagem simples e clara, mas não deve ceder à demagogia na utilização das palavras, pois é um mau exemplo.