quarta-feira, março 31, 2004

LUTA LIVRE

Nos meus tempos de juventude estavam muito em voga os espectáculos de luta livre, em que os dois jogadores utilizavam todo o tipo de golpes, mesmo os mais traiçoeiros e em zonas mais sensíveis para derrubar e vencer o adversário.
O importante era vencer, não importava como.
Quando algum deles tombava e ficava caído era pisado, massacrado e por vezes torturado. As imagens teatrais de pernas e braços torcidos e por vezes de sangue a correr faziam as delícias dos espectadores.
Os espectáculos eram ainda mais excitantes quando em vez de dois havia quatro lutadores em simultâneo ou alternativamente.
Previamente, os jogadores degladiavam-se na imprensa e davam entrevistas anunciando a sua disposição de massacrar o oponente. Quando acidentalmente se encontravam em qualquer local público, logo ali começavam as cenas de aparente violência.
Tudo tinha como objectivo estimular o público e a afluência ás bilheteiras.
Por detrás dos bastidores eles até eram amigos....
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Relembro estas imagens quando assisto actualmente às lutas políticas, designadamente em períodos eleitorais, em que vale tudo: acusações, ofensas, golpes baixos, ameaças...
Porque em privado, eles até são amigos....

sexta-feira, março 19, 2004

TERRORISMO II (A Guerra do século XXI)

A Guerra do século XXI já começou.
Sem fronteiras e sem inimigos visíveis, baseada num fanatismo religioso que leva homens, mulheres e crianças a sacrificarem-se voluntariamente para matarem outros homens, mulheres e crianças.
Há os fieis e os infiéis.
Há, de um lado, pessoas inocentes que têm medo de morrer e, do outro, pessoas criminosas que estão preparadas para o fazer sem hesitações.
Há, de um lado, pessoas sem rosto e, do outro, pessoas que se expõem de peito descoberto.
A Guerra ainda agora começou...
O governo norte-americano definiu uma estratégia de luta ao terrorismo segundo a qual não era suficiente a vigilância interna. Tornava-se necessário perseguir os terroristas nos países que lhes dão acolhimento (e que são obviamente inimigos também). E isto por recear que essas organizações, altamente treinadas e profissionalizadas, que já fabricam terroristas em escolas onde a mentalização de crianças começa cedo, possam vir um dia, num desses países, a produzir também armas de destruição maciça. Foi esse o motivo do ataque ao Afeganistão e ao Iraque, depois de repetidos avisos feitos pelas Nações Unidas. E que levou às pressões exercidas sobre a Coreia do Norte, a Líbia e a Síria e à intensificação da controlo sobre o Irão.
A Grande Europa considera essas acções abusivas e prefere limitar-se ao controlo interno, talvez pensando que os americanos farão o resto e que disso também beneficiarão, sem terem de pagar a factura...
Mas a cobardia e o medo conduzem à sujeição e não à vitória.

TERRORISMO I (O Medo)

Depois do 11 de Setembro e da decisão dos Estados Unidos de lançarem uma frente internacional contra o terrorismo, que incluiu a definição dos países do eixo do mal, potencialmente perigosos para a Humanidade, logo se levantaram vozes contra esse plano, por demasiado perigoso, susceptível de gerar novos ódios e desejos de vingança. O medo levou muitas pessoas a condenarem o ataque ao Afeganistão e a anteciparem o seu fracasso, com consequências terríveis para os países participantes.
Não foi isso que aconteceu e é de presumir que essa acção e o esforço de cooperação a que se assistiu por parte de muitos governos aniquilou uma parte importante da capacidade de acção do terrorismo fundamentalista islâmico.
Quando o segundo passo foi iniciado, com o ataque preventivo ao Iraque de Sadam Hussein, logo as vozes receosas se fizeram ouvir de novo, lembrando as ameaças de morte anunciadas pela Al-Qaeda.
Tornou-se então evidente que em toda a Europa a esquerda tinha assumido como bandeira a condenação do ataque ao Iraque, compreendendo a força da imagem bíblica do medo do fogo do inferno para os pecadores. Para isso, começou a propagar a ideia de que os países que participaram com os Estados Unidos no ataque iriam ser alvos de “castigos” impostos pela rede de Bin Laden.
Com a tragédia do 11 de Março, assumido como o primeiro desses castigos, o povo espanhol optou por cumprir as orientações dos prelados do fanatismo islâmico a fim de não correr o risco de mais condenações.
O Medo ficou definitivamente instalado em Espanha, que espera vir a obter alguma tranquilidade no presente, sem se preocupar com quais serão as consequências para as gerações futuras, se o terrorismo se vier a reforçar e passar a dispor de armas de destruição maciça.
Se o mesmo vier a acontecer noutros países do nosso Continente, como parece provável, será Bin Laden a definir a estratégia geopolítica dos países europeus. Os governos passarão a ser as comissões executivas que cumprirão essa estratégia no dia a dia.
Resta-nos esperar que do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos não vacilem e possam um dia vir a socorrer, uma vez mais, este velho, fragilizado e amedrontado Continente.

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

NO NORDESTE BRASILEIRO, II

No nordeste brasileiro, a cidade de Fortaleza é feia e suja. Na Av. Marginal, onde se situam os principais hotéis, não se pode tomar banho porque a água é poluída.
Mas os brasileiros são muito simpáticos e comunicativos, as praias ao longo da costa são lindíssimas. A natureza propicia-nos coisas saborosas, como as frutas e os frutos do mar, a preços aliciantes e ainda existe artesanato valioso, pela originalidade e qualidade, como os bordados de bilros feitos à mão por populações do interior, oferecido por valores irrisórios.
Por acréscimo, tudo faz lembrar a África onde nasci: as palmeiras nas praias, a água do coco, a chuva que cai enquanto se mergulha nas ondas, a temperatura da água do mar igual à do meio ambiente e ambas iguais à das chuvas. Só há duas estações: a das chuvas, de Janeiro a Julho, e a do sol, de Agosto a Dezembro. As temperaturas são idênticas todo o ano, à volta dos 28º / 30º.
Mas o que mais surpreende é a capacidade de organização, que era suposto não existir nos brasileiros. Nas praias pululam os vendedores ambulantes, mas todos se identificam com uma tarjeta na teeshirt com a designação de “credenciados”, o que garante um controlo da actividades. Os preços que praticam são idênticos, não havendo especulação de vendedor para vendedor, ou de loja para loja, inspirando confiança ao turista, que assim sabe que não está sendo ludibriado.
Entre as numerosas praias a oeste e leste de Fortaleza existe, a cerca de 85 km, a praia de Morro Branco, com falésias de areias coloridas, grutas e quedas de água doce, que proporcionam um passeio pouco vulgar. Quando foi descoberta a beleza daquela praia e começaram a surgir os turistas, a primeira dificuldade encontrada foi a de, à chegada dos autocarros, as pessoas serem “assaltadas” por dezenas de miúdos, da aldeia de pescadores que ali existia, pedindo uma moeda. A fim de encontrarem uma solução para essa situação desagradável, resolveram as agências de viagem reunir com a miudagem para lhe dizer que o seu comportamento de pedintes iria afastar os turistas e que isso seria mau para todos. Sugeriram que fizessem artesanato e o tentassem vender, de forma organizada. Os miúdos ficaram de pensar. Dias depois deram a resposta. Não queriam trabalhar em artesanato, mas tinham uma ideia. Declararam que pretendiam ser guias turísticos, acompanhando as pessoas, individualmente ou em pequenos grupos, no passeio nas falésias. Esse projecto foi organizado, incluindo formação profissional e a obrigação de frequentarem a escola. Hoje, quando o autocarro chega, não se vêem os garotos, que são chamados depois um a um. Durante o trajecto dão explicações interessantes, contam histórias da vida da aldeia e no fim recebem o que se lhes quiser dar. O passeio turístico passou a ter uma mais valia, os miúdos deixaram de ser pedintes, frequentam a escola e criam aptidões para uma actividade profissional.
Penso que em Portugal continuariam pedintes, sem escolaridade e sem formação profissional.

NO NORDESTE BRASILEIRO, I

Ao contrário das nossas televisões, que enchem o espaço dos telejornais com reportagens sobre as desgraças que vão acontecendo aos extractos mais pobres da população, desde as barracas destruídas, os acidentes e crimes ocorridos, as fábricas que fecham lançando pessoas no desemprego, numa auto-flagelação que tem algo de masoquista, a televisão no Brasil enaltece o Brasil e exalta os brasileiros.
Nos dias que passei recentemente em Fortaleza, comemorava-se o 450º aniversário de S.Paulo de forma alegre e ruidosa e as televisões compraziam-se a mostrar o que de bom tem aquela enorme cidade. Ao mesmo tempo dava-se a conhecer que numerosos arquitectos, engenheiros, artistas, pensadores e outras personalidades trabalhavam para projectar o que será S. Paulo dentro de 50 anos, quando completar 500 anos.
O Brasil goza o dia que passa e constrói o futuro.
Em Portugal, vivemos do passado e das desgraças do dia a dia.

sexta-feira, janeiro 16, 2004

FINANÇAS E POLÍTICA

A agência internacional Standard & Poor’s (S&A) publicou um relatório com uma apreciação positiva da evolução da economia portuguesa, fundamentando assim a manutenção da nossa classificação de risco em AA.
Quase em simultâneo o Presidente da República alarmou o País com uma comunicação à Assembleia da República exprimindo as suas preocupações pelo agravamento da situação económica exortando os partidos políticos a conjugarem esforços para a elaboração de um orçamento plurianual de convergência partidária.
O relatório da S&A terá certamente efeitos positivos nos meios internacionais sobre a credibilidade de Portugal.
A intervenção do Presidente terá certamente efeitos negativos na confiança interna.
Por outro lado, a sua proposta não terá qualquer viabilidade, como ele seguramente sabe.
Aliás se o objectivo fosse o de conseguir uma conjugação de esforços partidária seria mais fácil consegui-lo em privado do que na praça pública.
O que leva o Presidente da República a dificultar a tarefa nada fácil que o Governo tem tido e continua a ter para corrigir os desmandos socialistas ? A proximidade de períodos eleitorais ?

segunda-feira, dezembro 15, 2003

CAÇADAS EM ÁFRICA II

O Banco Nacional Ultramarino organizou em Moçambique a maior reserva de vida selvagem que porventura existiu em África na década de setenta. A Safrique, como foi designada, reuniu uma meia dúzia de coutadas, numa área de dimensão superior à de Portugal, para explorar o turismo cinegético, baseado num abate controlado de animais e no safari fotográfico. Reunia aquele espaço uma impressionante fauna selvagem, rica em espécies e em quantidade de animais. Desde os felinos aos pequenos primatas e às aves raras, de tudo existia naquelas centenas de quilómetros quadrados de florestas, planícies e rios, com uma extensa praia de areia muito branca e mar azul, ao longo da costa. Nunca, em lugar algum, penso que possa ter existido algo tão magnífico e tão grandioso. Era a natureza no seu esplendor.
Em todas as coutadas da Safrique existiam acampamentos, feitos de madeira e colmo, constituindo pequenos aldeamentos, na aparência semelhantes às aldeias indígenas, mas dotados de todos os requisitos de qualquer hotel de cinco estrelas.
O custo dos safaris só era acessível a pessoas muito ricas, idas principalmente dos Estados Unidos e da Europa. Por ali passaram grandes empresários, políticos de renome, estrelas de cinema e outros que puderam pagar o privilégio de apreciar algumas maravilhas da natureza.
Lembro-me de um palanque construído no cimo de algumas árvores junto a uma pequena lagoa, onde no início ou no fim do dia as pessoas se juntavam em profundo silêncio para ver ou fotografar os animais que pela fresca ali iam beber. Qualquer animal selvagem é de uma beleza única e incomparável. O leão, com a sua enorme juba, a cor da sua pele e o porte sobranceiro é uma obra extraordinária da natureza. Mas o mesmo se pode dizer do leopardo, da girafa, das zebras com as sua magníficas listagens, e tantas outras espécies, algumas infelizmente em vias de extinção. Mas a impressão que causam é maior quando são observados no seu habitat natural, onde se acrescenta a beleza do cenário, também único.
O pessoal que trabalhava nos acampamentos incluía, obviamente, caçadores-guias profissionais, que organizavam as deslocações diárias e asseguravam uma escolha criteriosa dos animais a abater, quando era caso disso, com preferência pelos machos mais velhos e com absoluta exclusão de fêmeas ou crias. Eram responsáveis também pela segurança dos turistas e pelo bom sucesso da caçada. No fim do dia, no acampamento, perto de uma enorme fogueira que afastava o cacimbo e os mosquitos, participavam com os seus clientes na euforia do momento, em que se lembravam os aspectos mais significativos da jornada, acompanhando a conversa com champanhe, wiskie ou vinho das melhores marcas e, para quem apreciava, de um bom charuto. Normalmente os caçadores-guias eram pessoas muito interessantes, pela experiência das suas vidas e pelo refinamento resultante do convívio com as personalidades que acompanhavam. Guardo, porém, uma recordação especial do velho Pierre, que ficou associada a uma tragédia de triste memória.
Uma família americana, constituída pelos pais e uma jovem de dezoito anos, esbelta, bonita e alegre, fizeram uma safári, que decorreu muito bem até ao fim, Na hora do regresso, a filha pediu para ficar mais uma semana. O seu prazer predilecto era o de se deslocar à praia, onde sózinha no imenso areal se despia e nua mergulhava nas ondas, apreciando a frescura das águas sob um o sol quente e brilhante. O velho Pierre, que podia ser seu pai (e talvez até avô), mantinha-se discretamente a alguma distância, procurando não interferir com a liberdade e o prazer que a jovem tirava daqueles momentos únicos, naquele espaço magnífico. Os pais criaram uma grande confiança no seu já amigo Pierre e resolveram aceder ao pedido da filha, que assim ficou, para morrer naquele paraíso, vítima de um fascinante mas perigoso animal selvagem, que cruzou o seu destino.
Um dia, um dos criados do acampamento anunciou que um leopardo fora ferido e fugira, não tendo ainda sido encontrado. Cabia ao Pierre ir procurá-lo e abatê-lo. Um animal selvagem ferido era um perigo para as populações e para os turistas. A jovem quis acompanhá-lo, ao que ele recusou. Mas ela não sabia aceitar recusas e tanto insistiu que acabou por convencer o velho caçador, que não resistiu aos encantos da jovem. Durante horas seguiram as pistas deixadas pelo leopardo e, pouco a pouco, aproximaram-se do local, na floresta, onde provavelmente se encontrava. O leopardo é um animal ágil, trepando às árvores como um gato e podendo esconder-se a coberto das folhas e dos galhos.
Não sei se alguém, alguma vez, chegou a saber exactamente o que se passou. Ao que parece o leopardo caiu de surpresa sobre a jovem. O velho Pierre, ao tentar desesperadamente abatê-lo, disparou, mas o tiro atingiu a jovem...